Canto do Vladimir


Palavras nas quais eu me amarro - Gamar

Mandei hoje o cartão virtual acima para a Viviane por conta dos nossos oito meses de casados. Parabéns para nós! Lembrei-lhe, no texto, que a última frase que proferi na apática Era A.P. (Antes da Pulguinha) da minha vida foi parecida. Foi quando nos reencontramos em 2006 no bar Bon Rini, depois de quase quinze anos e, lá pelas dez da noite, eu comentei galanteador:  “Sabia que eu era gamadinho por você na época da faculdade?” Ela se desarmou e o beijo aconteceu. A partir daí, como escrevi hoje no cartão, “minha vida floresceu e a felicidade pousou indelével na minha alma.”

O que eu queria falar aqui é que eu me amaro nas palavras gamado ou gamada, do verbo gamar, segundo o Houaiss: “ficar encantado, apaixonar-se, vidrar”. Decepcionei-me ao ver que o livrão considera a origem obscura. Googlando, achei umas teorias: gama seria uma denominação para ladrão no Iêmen. Será que, daí, teria passado a surrupiador de coração? Isso bate com uma outra acepção para gamar no Houaiss: “furtar sem ser percebido, com sutileza”. Acho que a gamação tem sim a ver com isso, quando a gente percebe, tá gamadinho!

Outra alternativa aventada na minha googlada é que o verbete viria da letra gama, do alfabeto grego, símbolo do campo magnético terrestre. Ou seja, teria a ver com atração magnética... Humm, boa! Fui voltar ao Houaiss, e me deparei com outra acepção para gama: é a fêmea do gamo, um “cervídeo com chifres em forma de galhada!” Ops! Espero que não tenha vindo daí!.

Mas posso eu também criar a minha teoria? Gamar poderia vir de gomar, ou seja, “colar com goma”. É que, após oito meses de casado, eu continuo gamadão pela minha esposinha, o que, para mim, é o mesmo que estar o tempo todo com vontade de ficar coladinho a ela! Feliz Oito Meses, Iaiá!



 Escrito por Vladimir às 10h16
[   ] [ envie esta mensagem ]




Up, e as altas aventuras de uma vida a dois

Muitas vezes, fico preocupado de não estar programando muitas coisas novas pra fazer com a minha esposinha Viviane. Mas será que a gente precisa inventar modas para a nossa vida a dois ser uma aventura inesquecível? Obtive essa resposta no cinema, nesse fim de semana, com um filme do qual não esperava muito.

Já comentei aqui que as animações têm roubado a cena do cinema em 2009. Achei Bolt, Monstros vs Alienígenas e Era do Gelo 3 bem melhores que, por exemplo, X-Men - Wolverine, Watchmen e Exterminador do Futuro 4. E, na minha opinião, o melhor filme do ano até agora é justamente a animação Up – Altas Aventuras.

Que obras cinematográficas hoje em dia desenvolvem personagens tão bem que já nos emocionam às lágrimas nos primeiros cinco minutos? E, dentre estes, quais conseguem fazer isso sem que o personagem principal diga uma fala sequer nesse tempo? A Pixar já tinha perpetrado, com Wall-E, a ousadia de quarenta minutos iniciais sem um só diálogo. E agora eles contam, em cinco minutos e sem texto, setenta emocionantes anos da vida de um casal. Quem conta essa estória são a casa, as mãos cobertas de tintas se unindo, a expressividade dos personagens e até as nuvens do céu. É genial e, se o filme acabasse ali, já teria valido a pena.

Mas as aventuras do velhinho ranzinza que resolve viajar com balões são um deleite só. O roteiro bem montado (que brinca de transformar heróis em vilões e vice-versa), as cenas de ação tomando proveito de toda a morfologia dos cenários e recursos, as boas piadas, as belas paisagens e a química entre o velhinho e um escoteiro japinha têm, como sempre, um padrão de qualidade que só a Pixar tem conseguido imprimir. Só torci o nariz para invencionices, como aviões pilotados por cachorros e coleiras falantes. Mas só o fato da Pixar se arriscar em soluções menos manjadas, me fez relevar e até admirá-la.

No final, as lágrimas voltaram à minha face com a surpreendente mensagem. A de que as aventuras de nossas vidas dependem mais do nosso coração do que de mirabolâncias. Olhei para a minha esposinha que também se debulhava em prantos, e agradeci silenciosamente pelo prazer que está sendo viver com ela, inventando ou não "altas aventuras" para os nossos dias.



 Escrito por Vladimir às 10h35
[   ] [ envie esta mensagem ]




Mr. Pixar, cineasta autoral

Muito se fala da expressão “cinema autoral”, mas não achei muitas definições satisfatórias na web. A mais aceita se refere a quando o cineasta produz, escreve e dirige os seus próprios filmes, como faziam François Truffaut, Federico Fellini e Charles Chaplin. Isso em oposição àqueles filmes “encomendados”, com roteiristas e diretores contratados, como Transformers, etc. Mas essa definição não é unânime: Alfred Hitchcock, por exemplo, é considerado autoral mas não escrevia os roteiros de seus filmes. No entanto, ele cuidava de suas obras com muito carinho, para que tivessem sua marca, fossem absolutamente “suas”.

Outra característica dos cineastas autorais é a originalidade. Poucas vezes um auteur (como Truffaut convencionou em chamá-los) ancora-se em continuações ou adaptações de obras ou personagens consagrados. Isso os torna uma raridade, mas também um risco aos estúdios de hoje em dia, que preferem apostar em referências conhecidas.

Na minha opinião, há poucos cineastas autorais em atividade que estão mantendo a qualidade dos suas melhores obras: Pedro Almodóvar nunca mais fez um Fale com Ela (a ver Abraços Partidos, no Festival do Rio); Wong Kar Wai não igualou Amor à flor da pele; Lars Von Trier parou em Dogville (Anticristo foi chocante, que é diferente de surpreendente), Quentin Tarantino fez o seu melhor em Pulp Fiction (também no Festival, verei Bastardos Inglórios, quem sabe?) e os últimos surtos de originalidade de M. Night Shyamalan não sobrevivem à comparação com O Sexto Sentido. Um diretor mais recente, o coreano Park Chan-wook, considero “sob vigilância”, pois a sua obra recente (I’m a cyborg, but that’s OK) até tem qualidade, mas não a do excelente Oldboy. Espero que seu Sede de Sangue esteja também no Festival do Rio, pra eu matar essa dúvida.

Pensei em três cineastas que têm mantido uma qualidade compatível com seus melhores filmes. Woody Allen impressiona pela sua prolificidade, todo ano tem filme dele que, se não é sempre genial, é bem melhor que a média de mercado. Fernando Meirelles é outro que continua sendo um prazer ver, mesmo não tendo feito um novo Cidade de Deus. E o último do mexicano Alejandro Iñárritu, Babel, eu adorei ainda mais que Amores Brutos. Vamos ver como ele se sairá  sem o seu roteirista tradicional, Guillermo Arriaga. Poderia citar também a dupla Michel Gondry (diretor) e Charles Kaufman (roteirista), que cometeram o melhor filme da década, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e, depois, partiram em carreiras solo autorais interessantes, mas sem o mesmo... brilho.

Tudo isso foi pra dizer que o cinema de auteur da atualidade que mais se destaca pela originalidade e qualidade que se superam a cada filme é o feito pelo estúdio de animação Pixar da Disney. Eu sei que não se trata de um cineasta, mas até parece que existe um Mr. Pixar: seus fundadores, em especial o chefão John Lasseter, esmeram-se com carinho para que todos os filmes tenham um roteiro bem urdido, um mundo novo, um encantamento especial. Enfim, uma marca autoral. Além disso, não se baseiam em personagens ou obras conhecidas, tiram todas aquelas preciosidades da cartola. Como eles conseguem? Quando achamos que Toy Story foi ótimo, vem a obra-prima Procurando Nemo. Se consideramos Nemo o ápice, vêm Ratatouille (uau!), Wall-E (uôu!)...  E esse ano, juro que não botava fé no tal velhinho voando com balões de Up – Altas Aventuras. Mas a Pixar conseguiu de novo! Fez outra obra-prima, criativa e encantadora, que nos emociona do início ao fim.

Como esse texto ficou longo, vou comentar o filme propriamente dito em outro post. Mas não esperem, vão logo ver mais essa jóia do melhor cineasta autoral da atualidade... Grande Mr. Pixar!



 Escrito por Vladimir às 15h03
[   ] [ envie esta mensagem ]




Um pequeno conto meu

Dupla Invencível

Naquela cidadela do interior, o garoto Azulão e sua colega Marina não se desgrudavam na sala de aula. Estudavam juntos, jogavam xadrez, duelavam naquele jogo de tabuleiros Scotland Yard, faziam planos de se tornarem agentes do Arquivo X do FBI quando crescessem...

Numa tarde, a turma de meninos “Gangue da Moagem” - uma espécie de Clube do Bolinha da cidade - decidiu por executar a tal invasão investigativa ao famoso casarão abandonado da Rua de Baixo, que todos sabiam ser mal-assombrado. Os meninos já tinham uns onze, doze anos, e essa missão era considerada a última da Gangue, pois muitos iam estudar na capital no ano seguinte. Azulão, Stanislau e os outros quatro, olhavam com interesse para o casarão. Não era só uma construção monstruosa condenada e invadida pelo mato; era um símbolo, talvez um epílogo de todas as aventuras que aquele honorável clube de meninos fizera até ali. Subir na enorme caixa-d’água da cidade, roubar jambo do Seu Juca, atravessar o cemitério à meia-noite; tudo isso era planejado e realizado sempre com aquele gostinho de “um dia a gente vai é entrar no Castelo Mal-Assombrado da Rua de Baixo”. O casarão era realmente imenso, um labirinto provavelmente cheio de passagens secretas, e era conhecido por reunir os fantasmas e bruxas de toda a região, numa espécie de convenção de almas penadas. Os meninos olhavam excitados.

De repente, Azulão sugeriu distraído:

- Vou chamar a Marina pra participar da missão, eu posso, né?

Foi como um pequeno choque. A despeito da tarde calmíssima, sem ventos, aos poucos cobrindo a mansão gigante de penumbra, um rebuliço invadiu a cabeça dos garotos. Fecharam a cara para a singela sugestão. Azulão está louco? Qual é a dele? Era uma quebra de tradição grave incluir uma garota nas aventuras. Um teve vontade de cancelar toda a empreitada ali mesmo. Outro pensou em abrir votação para a expulsão de Azulão da Gangue. Um até chegou a suar e fechar a mão instintivamente. Só ele, Azulão, encarava a sua sugestão como a mais natural do mundo. Não era de hoje que ele estava mais afastado da turma. Quer dizer, a turma toda andava meio ausente, mas Azulão estava realmente diferente.

No entanto, talvez pela petulante naturalidade de Azulão, um minuto passava, dois, e nenhum dos outros tomava coragem de negar o pedido explicitamente. A questão começou a chocar ainda mais justamente por não causar estranhamento. Os garotos reconheciam que as habilidades investigativas de Marina seriam excelentes para a aventura. Mas eles se assustaram foi com uma certa consciência coletiva pairando sobre as alminhas de que a imagem do final da infância não era um clímax emocionante da invasão da mansão, e sim o anticlímax de uma sugestão inocente. Aquela frase antecipou-se à mansão em pôr termo à turma, à infância deles. Azulão era o primeiro que já estava traçando um futuro, arranjando uma namoradinha, uma pessoa que combinava tanto com ele... Que inveja, que admiração, que vontade de ter um caminho também, de formar uma dupla unida e invencível como a de Azulão e Marina... Uma melancolia começou a se derramar pelos meninos, um até se segurou para não chorar; fungou fingindo um resfriado. Azulão continuou tranquilo, brincando com um graveto. O silêncio imperou pelos longos minutos do crepúsculo.

Mas logo essa tristeza se fragmentou. É que Stanislau, um dos garotos, ganhou forças, levantou a cabeça e, com a complacência de todos, anuiu:

- Pode chamar sim, Azulão. Ela é legal...



 Escrito por Vladimir às 09h32
[   ] [ envie esta mensagem ]




São Vladimir

 

Meu pai me contou de uma catedral em Kiev, Ucrânia, em homenagem a um certo São Vladimir, vejam acima as imagens dela, que bonita. Fuçando, vi que esse santo ortodoxo na verdade foi o Príncipe Vladimir, o Grande (ou ainda, Vladimir I, de Kiev), que comandou o Reino de Kiev (que abrangia partes da Ucrânia, Rússia e Bielorússia de hoje) há exatos mil anos atrás (do ano 980 a 1015). Foi quem cristianizou a região, se tornando uma figura muito querida, conhecido pelo codinome de Sol Justo. Recentemente, fizeram até um longa de animação com a história dele, vejam o poster abaixo:

Há controvérsias sobre o significado do nome. Diz-se que vladi é “reger, governar” e mir “fama, glória”, então seria algo como “Governar com Glória”. Porém a palavra mir tem outros significados nas línguas eslavas: “paz”, “povo” e “mundo”, então há quem diga que seria “Governar com Paz” ou “Governar o Mundo”, ou ainda, como popularmente mencionado na Rússia, “Mestre do Universo”. Humm, menas, né?

Enfim, é por causa desse nobre de Kiev que Vladimir se tornou popular no mundo eslavo, de lá para o resto do mundo, sendo, portanto, por sua causa que eu mesmo tenho esse nome. Tirando o fato de ter sempre sido um dos últimos na chamada na escola, o nome sempre me agradou, por ter ares elegantes e não ser tão repetido.

Sendo um dos nomes mais comuns entre os eslavos, a história traz bastantes exemplos: do revolucionário Lenin ao Conde Vlad, o Impalador (da Transilvânia), do poeta Maiakovski ao político Putim, do escritor Nabokov (de Lolita) ao pianista Horowitz. No Brasil também temos o político Vladimir Palmeira; o jornalista morto pela ditadura Vladimir Herzog; o ator Vladimir Brichta e até um popular lateral esquerdo do Corinthians nos anos 70, Wladimir. Na ficção, além do Conde Drácula, inspirado pelo Conde Vlad, só me lembrei do também vampiro Vladimir Polanski, da novela Vamp, e do  bombeiro garanhão Vladimir, da novela Celebridade. Putz, encerrei bem a lista, heim?

Outras curiosidades são as variações dependendo da língua. Se o mais comum é se escrever como no original, Vladimir, vejam as outras formas:

Em Latim: Vladimirus
Em alemão: Wladimir
Em italiano: Vladimiro
Em ucraniano: Volodymyr
Em bielorruso: Uladzimier
Em polonês: Wlodzimierz

E se na minha vida sempre fui chamado de Vlad (exceto por meus irmãos, a quem sou simplesmente Vla), vejam só essas reduções em outras línguas: Vova, Volodya (essas duas, as mais comuns na Rússia), Vovochka (esse é um personagem infantil de piadas na Rússia, como o Joãozinho no Brasil), Vladim, Vladan, Vlado, Volya, Vovusha (ui!), Vovka (hahaha, parece Vodka!), Vovanych, Vovyan (me amarrei, poderia formar a dupla Vovyan & Vivian com a minha Pulguinha, né?), Vovansky,... Isso porque a web não menciona as formas pelas quais já fui chamado por pessoas mais simples, coisas do tipo: Fladimir, Vradimir, Claudemir, Fradimir, Fredmir, Craudimir, Valdeir, Vardermir (acreditem!)...

Por fim, pra minha surpresa, descobri na web que há também versões no feminino: Vladimira, Vlada, Vladimirka, Vladislava, Vladanka....

Vixe, meu São Vladimir, quanta variação saiu de teu nobre nome, heim?



 Escrito por Vladimir às 11h36
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]




 
Canto do Vladimir

Perfil
Nome: Vladimir Batista
Idade: 37
Nasceu: Goiás
Mora: Rio de Janeiro
email: vladimir.batista@gmail.com

Conteúdo
Blog de Vladimir Batista, 37, sobre cinema, curiosidades (etimologia (origem das palavras), dicionário, cultura inútil, rankings (top10, top5,...)), música, TV, literatura, minhas criações (letras, poemas, contos, romances, novelas, roteiros de cinema, argumentos), atualidades, minha vida, etc...


Histórico
  01/11/2009 a 30/11/2009
  01/10/2009 a 31/10/2009
  01/09/2009 a 30/09/2009
  01/08/2009 a 31/08/2009
  01/07/2009 a 31/07/2009
  01/06/2009 a 30/06/2009
  01/05/2009 a 31/05/2009
  01/04/2009 a 30/04/2009
  01/03/2009 a 31/03/2009
  01/02/2009 a 28/02/2009
  01/01/2009 a 31/01/2009
  01/12/2008 a 31/12/2008
  01/11/2008 a 30/11/2008
  01/10/2008 a 31/10/2008
  01/09/2008 a 30/09/2008
  01/08/2008 a 31/08/2008
  01/07/2008 a 31/07/2008
  01/06/2008 a 30/06/2008
  01/05/2008 a 31/05/2008
  01/04/2008 a 30/04/2008
  01/03/2008 a 31/03/2008
  01/02/2008 a 29/02/2008
  01/01/2008 a 31/01/2008
  01/12/2007 a 31/12/2007
  01/08/2007 a 31/08/2007
  01/05/2007 a 31/05/2007
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/07/2005 a 31/07/2005
  01/06/2005 a 30/06/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/04/2005 a 30/04/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004
  01/11/2004 a 30/11/2004
  01/10/2004 a 31/10/2004
  01/09/2004 a 30/09/2004
  01/08/2004 a 31/08/2004
  01/07/2004 a 31/07/2004