Canto do Vladimir


Lullaby

Eu e a Viviane gostamos de dormir com música. Qualquer uma que nos agrade: instrumentais, Disco, MPB e até hard rock. Mas outro dia comprei um CD chamado Canções de Ninar, do grupo Palavra Cantada. Foi engraçado, achamos numa feirinha da Praça São Salvador e o vendedor falava: “É ótimo pra crianças!” “As crianças adoram.” “Bom principalmente para menores de 3 anos”. A gente ria, mas não dissemos que era pra nós mesmos.

Adoramos! Tem até uma musiquinha que conta carneirinhos, que eu me amarro. A Viviane só reclamou que nunca consegue ouvir mais de uma música, pois antes da segunda... cataploft! já caiu no sono.

Um dos sinônimos para cantiga de ninar é a no. 2 do meu ranking de palavras favoritas em português: acalanto (só perdendo pra saudade). Em inglês, canção de ninar é lullaby, outra palavrinha linda, né? A origem mais aceita para lullaby é que veio do cantarolar la-la-la, com bye no sentido de boa noite. Há outra teoria que veio de Lilith-bye, ou seja, uma maneira das crianças dizerem adeus a Lilith, um certo anjo do mal.

A propósito, acho estranho que muitas cantigas de ninar mencionam monstros, né? As mais populares do Brasil falam do “Boi da cara preta” e da “Cuca” que “vem pegar”. Aliás, fui fuçar a palavra Cuca e descobri outra curiosidade. Seu nome evoluiu de Coca, que por sua vez seria o feminino de Coco, um dos nomes originais para o Bicho Papão. O curioso é que o nome do fruto do coqueiro veio desse Coco folclórico. É que as mães usavam o coco para reperesentar o bicho, como fazem com a abóbora no halloween, e assustar as crianças. E o fruto acabou assumindo o nome do monstro imaginário.

Que maldade, né, prefiro lullabyes que só contem carneirinhos, pode ser?



 Escrito por Vladimir às 09h11
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Bigorna

Achei o filme Arrasta-me para o inferno menos criativo que o clássico trash Uma Noite Alucinante (Evil Dead II) dos anos 80, do mesmo diretor Sam Raimi. Mesmo assim, tem momentos hilariantes, como quando a mocinha está sendo atacada por um ser horripilante e nota que há uma bigorna pendurada no alto, por uma corda. Claro que ela corta a corda e a bigorna tomba na cabeça da besta, fazendo seus olhos saltarem, muito legal. Mas eu me perguntei, o que fazia uma bigorna pendurada? Ou melhor: quem tem uma bigorna em casa? Para que esse bloco de ferro serve a não ser para abalroar o Coiote, no desenho do Papa-léguas?

Pra não dizer que nunca vi esse troço, a gente teve de fabricar umas minibigornas nas aulas de torno do SENAI, no curso de engenharia. Realmente, isso foi muito importante para a minha carreira... Fuçando, vi que a bigorna serve de apoio para forjar metais, mas que caiu em desuso pois hoje há maneiras mais práticas. A palavra vem de bi (dois) + cornu (corno, chifre), por causa das duas pontas. E que é o nome de um dos menores ossos do corpo humano, compondo com o martelo e estribo os ossículos do tímpano. Essa quem se lembrou foi minha esposinha médica.

A Wikipedia menciona as diversas referências de bigorna em desenhos animados. Um deles, Animaniacs, tem até uma Anvilannia (algo como Bigornolândia), uma cidade cuja única atividade econômica é a fabricação de bigornas. Muito útil no mundo dos cartoons, né? Mas a melhor referência é um dos deliciosos diálogos da saudosa série Gilmore Girls, quando Lorelai comenta que, pelas frequentes citações, as bigornas deviam ser comuns antigamente e, como não são mais vistas, conjectura: para onde foram todas as bigornas? Se elas eram feitas justamente para não se derreterem no trabalho de forjar, então, afinal, em que armazém secreto do governo estão todas as bigornas escondidas?

Bom, só espero que nenhuma delas esteja de bobeira acima da minha cabeça, né?



 Escrito por Vladimir às 21h53
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Som & Fúria e Decamerão

Com minha TV a cabo com possibilidade de gravação de programas, finalmente este dorminhoco que vos escreve pode acompanhar com afinco séries e minisséries depois das 23hs. Assisti inteiro Som & Fúria, sobre uma companhia de teatro, adorei! Além da raridade de ver Shakespeare na TV, ainda teve performances impagáveis, como a da Andréa Beltrão, do Dan Stulbach e, principalmente, do Felipe Camargo, de quem eu nunca gostei muito, mas que parece ter encontrado o papel perfeito como um maluco beleza. O diretor Fernando Meirelles mandou bem, tomara que vire série regular!

Falando em Shakespeare, agora tenho me amarrado em Decamerão, A Comédia do Sexo. Assim como nas peças do bardo, o diálogo é todo rimado, o que faz com que o texto dê dois prazeres: entender os vaivéns das hilárias intrigas de traição e ficar tentando adivinhar como as rimas serão resolvidas. As tramas lembram os melhores momentos dos autores, o Guel Arraes e o Jorge Furtado, como em O Auto da Compadecida e Caramuru. E os atores, como a Drica Moraes e Matheus Nachtergale, estão como sempre ótimos. E o Lázaro Ramos dando uma de voyeur com a Leandra Leal no último episódio me remeteu a um dos meus filmes favoritos, O Homem que copiava, também do Jorge Furtado.

Tomara que mantenham o padrão, pois o meu gravador de programas não vai deixar eu perder nenhum episódio!



 Escrito por Vladimir às 11h26
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Seguindo o delinear das coisas

Uma coluna recente do Arthur Dapieve cita até Sartre para falar do lado existencialista do crepúsculo, do entardecer. À medida que as coisas vão desaparecendo com a chegada da noite, emerge a dúvida: se a gente não pode vê-las, elas existem? Elas precisam da gente pra existir?

Lendo isso, lembrei de uma música da compositora nova-iorquina Suzanne Vega, chamada Night Vision, na qual ela ensina uma criança a enxergar no escuro, numa metáfora de que não se deve esconder do filho as coisas sombrias do mundo, e sim ajudá-lo a enxergar com olhar crítico. Segue um trecho:

 

Night Vision

(Suzanne Vega)

 

The table. The guitar

The empty glass

All will blend together

When the daylight has passed

 

When the darkness takes you

With her hand across your face

Don't give in too quickly

Find the thing she's erased

 

Find the line, find the shape

Through the grain

Find the outline,

And things will tell you their name

Visão Noturna:

(tradução: Vladimir)

 

A mesa. O violão.

O copo vazio.

Tudo vai se mesclando

Quando o dia fica sombrio

 

Quando o breu te pega

Com a mão sobre tua face

Busque o que ele apaga

Não desista tão fácil

 

Ache a linha, ache a forma

Nos fragmentos

Ache o traçado

E as coisas nomearão seus elementos

 

Li que Suzanne se baseou em um poema chamado Juan Gris, do poeta francês Paul Éluard. Alguns versos são traduções literais, mas o curioso é que Éluard não falava de visão noturna e sim da arte do pintor espanhol Juan Gris, que aliás eu me amarro. Vejam exemplos de suas pinturas:

   

                 

Reparem que a arte do cubista Gris não é sombria, mas o método para decifrar os elementos de sua pintura seria o mesmo. Se olharmos distraídos seus quadros, vemos somente umas colagens sem sentido, com traços quebradiços. Mas se seguirmos uma linha aqui, um delinear ali, enxergaremos seus temas recorrentes: o violão, a mesa, o copo. Como, aliás, é dito na poesia de Éluard, e também na sua bela tradução folk de Suzanne.

Da arte cubista à visão noturna, passando pelo enfrentamento dos perigos da vida: quanta coisa pode sim existir por trás da escuridão advinda do crepúsculo...



 Escrito por Vladimir às 17h06
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Frases em latim

Fiquei matutando se a frase “Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?” é mesmo a única que sei em latim. Expressões, ouvimos várias por aí, seja pelas religiões (mea culpa, corpus christi), pelo meio jurídico (habeas corpus, sine qua non), ou até em séries policiais (modus operandi, rigor mortis). Algumas foram incorporadas na língua (carpe diem, a priori, curriculum vitae, fac simile (que literalmente significa “faz igual”), in loco, pro forma, sui generis, vice versa). Aliás, fiquei na dúvida se ad eternum (ou ad aeternum) existe. Achei referências boas só para ad infinitum e ad nauseam...

Enfim, frases com sujeito e predicado mesmo, será que eu conheço mais alguma? “Mens Sana in Corpore Sano”, o mantra da vida saudável, não chega a formar uma oração, assim como “Libertas Quae Sera Tamen”, lema da Inconfidência, inscrito na bandeira de Minas ("Liberdade ainda que tardia").

Lembrei de três frases religiosas: “Fiat Lux” (Faça-se a luz, do Gênesis), “Habemos papam” (popularizada na eleição de Bento XVI) e “Vade Retro Satana” (que proferi contra uma professora carrasca, uma vez, que lástima) e de mais uma romana “Et tu, Brute?” (ou “Até tu, Brutus”) eternizada por Shakespeare em Júlio César. Mas a mais fascinante, é outra que meu pai me ensinou: “Sator Arepo Tenet Opera Rotas”. É que se você colocar na forma de um quadrado, assim...

SATOR
AREPO
TENET
OPERA
ROTAS

... consegue ler a mesma frase na vertical, horizontal, de trás pra frente e de cabeça pra baixo. As traduções não são conclusivas, giram em torno de “Arepo, o Semeador, guia as rodas cuidadosamente”. Mas li que há controvérsias se essa frase existiu mesmo, pois não é do latim erudito. De qualquer forma, em nenhum outro idioma com nosso alfabeto, alguém foi capaz de criar uma frase construída assim, que tenha um mínimo sentido. Então, ficamos com essa mesmo, pode ser?



 Escrito por Vladimir às 20h43
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Quousque tandem, Vossa Excelência?

Fazendo turismo em Roma, há três anos, eu pedi para a Viviane fazer um filmeto no celular com este blogueiro molecamente discursando nas ruínas do Senado Romano. Proferi a única frase que sei em latim, originalmente de um discurso dito há dois mil anos no mesmíssimo sítio:

       Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?

Quer dizer: “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”. Li que foi um discurso de Cícero contra um outro senador, o rebelde Lúcio Sérgio Catilina, em 63 a.C. Pelo menos, não se chamavam hipocritamente de “Vossa Excelência”, né?

Lembrei disso, ao rir de um tweet do Nelson (do blog Ao Mirante), com a mesma frase, mas substituindo Catilina por CatiLula, referindo-se, lógico, a Lula, quando ele abusou de nossa paciência na defesa do Sarney. Imaginei que fui dos poucos da minha geração que entendeu esse gorjeio, assim mesmo porque foi meu pai quem me ensinou a frase.

Eu me dei conta que sou de uma das primeiras gerações que nunca aprendeu nadica de latim na escola, que pena. Creio que não ensinar uma língua morta foi um passo na direção da modernidade, mas do jeito que gosto das palavrinhas e de etimologia, acho que eu ia gostar de aprender um pouco... Será?



 Escrito por Vladimir às 17h21
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Muitos beijos para a minha Viviane, no dia do seu aniversário!



 Escrito por Vladimir às 17h42
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Canto do Vladimir

Perfil
Nome: Vladimir Batista
Idade: 37
Nasceu: Goiás
Mora: Rio de Janeiro
email: vladimir.batista@gmail.com

Conteúdo
Blog de Vladimir Batista, 37, sobre cinema, curiosidades (etimologia (origem das palavras), dicionário, cultura inútil, rankings (top10, top5,...)), música, TV, literatura, minhas criações (letras, poemas, contos, romances, novelas, roteiros de cinema, argumentos), atualidades, minha vida, etc...


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