Canto do Vladimir


A atriz chinesa Gong Li



 Escrito por Vladimir às 07h09
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Bom dia, Tristeza

Ao googlar “tristeza+letras”, deparei-me com várias músicas com esse sentimento no título. A maioria espantando a bicha: uma canção chama-se “Xô, tristeza”, outras “Adeus, tristeza”, “Nada de tristeza”, “Eu deixo a tristeza”, “Fim da tristeza”, “Sai daqui, tristeza”. Uma que era um chiclete da Sandra de Sá, quem não conhece?: “Eu não tô aqui pra sofrer / Vou sentir saudade pra quê? / Quero ser feliz / Bye bye, tristeza / Não precisa voltar”.

Outras têm belos nomes, como: “Tristeza de nós dois”, “Fado da tristeza”. Um clássico de Niltinho e Haroldo Lobo diz: “Tristeza, por favor vá embora / Minha alma que chora / Está vendo o meu fim”.  A maravilhosa Dolores Duran também compôs uma “Canção da Tristeza”. Em outra, “Por causa de você”, em parceria com o Tom Jobim, ela diz: “Ah, você está vendo só do jeito que eu fiquei / E que tudo ficou / Uma tristeza tão grande nas coisas mais simples / Que você tocou”.

Mas ninguém falou tanto e tão bem de tristeza como Vinícius de Moraes. Ao contrário de outros, ele não lamenta ou espanta a tristeza, prefere personificá-la, cultivá-la como uma companheira, um chamego. Na parceria dele como Adoniran Barbosa, por exemplo, a tristeza é cumprimentada com carinho: “Bom dia tristeza / Que tarde tristeza / Você veio hoje me ver / Já estava ficando até meio triste / De estar tanto tempo longe de você”.

Na mais famosa da parceria de Vinícius com Tom, “Chega de Saudade”, a Tristeza também é personificada como uma mensageira, levando um recado à amada. “Vai minha tristeza / E diz a ela / Que sem ela não pode ser”. Na minha música favorita, “Felicidade”, ele declara sua imortalidade: “Tristeza não tem fim / Felicidade sim”.

Mas a canção definitiva sobre tristeza de Vinícius, é quase uma homenagem ao sentimento. No “Samba da Benção”,  parceria com Baden Powell, ele diz:

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não
(...)
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não...

Puxa, dá até vontade de estar triste e inspirado como Vinícius, né?



 Escrito por Vladimir às 07h31
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Um pequeno conto meu...

Dupla Invencível

Dentro da sala de aula da cidadela do interior, o menino Iuri e sua colega de escola Cláudia não se desgrudavam. Estudavam juntos, jogavam xadrez, duelavam naquele jogo de tabuleiros Scotland Yard, faziam planos de tornarem-se agentes do Arquivo X quando crescer. Fora da escola, porém, Iuri renegava Cláudia e andava com sua turma só de meninos, o “Clube da Moagem”.

Naquela tarde, esse grupo de uns seis garotos decidiu finalmente executar a invasão investigativa ao famoso casarão abandonado da Rua de Baixo, que todos sabiam ser mal-assombrado. Os meninos já tinham uns onze, doze anos, e essa missão era considerada a última do Clube da Moagem, pois muitos iam estudar na capital no ano seguinte. Olhavam com interesse para o casarão, que não era só uma construção monstruosa condenada e invadida pelo mato; era um símbolo, talvez um epílogo, de todas as aventuras que fizeram até ali. Subir na enorme caixa-d’água, roubar jambo do Seu Jairo, atravessar o cemitério à meia-noite, tudo isso era planejado e executado com aquele gostinho de “um dia a gente vai é entrar na Mansão Mal-Assombrada da Rua de Baixo”. O casarão era imenso, um labirinto, conhecido por reunir os fantasmas e bruxas de toda a região, numa espécie de convenção de almas penadas. Os meninos olhavam entusiasmados. Subitamente, Iuri disse:

- Posso chamar a Cláudia pra participar da aventura?

Foi um pequeno choque. A despeito do final de tarde calmíssimo, sem ventos, aos poucos cobrindo de penumbra a mansão gigante, a singela sugestão foi um rebuliço invadindo a cabeça dos garotos, que fecharam a cara. Era uma quebra de tradição grave incluir uma menina nas aventuras. Uns tiveram vontade de cancelar toda a empreitada ali mesmo. Outros pensaram em abrir votação para a expulsão de Iuri do Clube da Moagem. Não era de hoje que ele estava mais deslocado da turma. Quer dizer, todos andavam meio afastados, mas Iuri estava realmente diferente.

No entanto, por algum motivo, nenhum deles tomava coragem de negar o pedido sumariamente. É que, curiosamente, a frase chocou justamente por não causar o estranhamento esperado em seus coraçõezinhos. Tudo bem que os garotos reconheciam que as habilidades investigativas de Cláudia seriam excelentes para a aventura. Mas eles se assustaram foi com uma certa noção coletiva que a imagem do final da infância não seria o clímax emocionante da invasão da mansão, e sim o anticlímax de uma pergunta inocente. Aquelas palavras anteciparam-se à mansão em por termo à turma, à infância, acordaram-nos para uma nova fase em suas vidas. Iuri era o primeiro que já estava traçando algo mais concreto, arranjando uma pequena namorada que combinava tanto com ele... Que inveja, que admiração, que vontade de ter um caminho também, de formar uma dupla unida e invencível como a de Iuri e Cláudia... Uma melancolia começou a se derramar pelos meninos. O silêncio imperou por longos minutos naquele fim de tarde.

Mas logo essa tristeza sublimou-se. É que um dos garotos, ganhou forças, sacudiu a cabeça e, com a conivência de todos, disse:

- Pode chamar sim, Iuri... Ela é legal...



 Escrito por Vladimir às 07h57
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A Pequena Miss Sunshine

É um filme sobre uma viagem pela estrada de uma menina gordinha que sonha ser miss mirim na companhia do pai fracassado, do avô desbocado, do tio intelectual deprimido, do irmão rebelde em greve de silêncio e da mãe, a única que parece normal. Soma-se a esse encontro de abilolados uma kombi que só tem duas marchas e com a buzina apitando sem querer e temos a melhor comédia de costumes de muitos anos. Era para ser um humor “agridoce”, daqueles que a gente ri com o coração tocado e nos faz pensar um pouco no final. Realmente, o filme tem esse efeito, mas não teve jeito: na sessão lotada de A Pequena Miss Sunshine do Festival do Rio, o público (eu, inclusive) rolava de rir e aplaudiu muito. Merecido.



 Escrito por Vladimir às 07h29
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O mercado dos infelizes


O jornalista Dapieve, em sua coluna de O Globo de umas semanas atrás, se diz surpreso com uma pesquisa do Datafolha onde 76% dos brasileiros de dizem felizes, 22% mais ou menos felizes (?) e somente 2% infelizes. Um pouco surpreendente também é o próprio Dapieve se colocar entre esses 2%. Quem tem a pachorra de se declarar infeliz para todos os seus leitores? Provavelmente vai receber um monte de emails com fórmulas para ser feliz, coitado. Eu não teria essa coragem.

Também fiquei surpreso com o resultado da pesquisa. Só 2%? Qual a população carcerária do Brasil? Serão esses infelizes na verdade... felizes? E a galera da miséria absoluta? E as vítimas da violência? E a turma das doenças incuráveis? Sabe, eu sou capaz de apostar que mesmo nesses nichos, a porcentagem de infelizes é mínima. Provavelmente esses 2% são pessoas cheias de predicados e oportunidades mas que não acham o sentido na vida. O Dapieve por exemplo, é um cara bem-humorado, que trabalha com o que gosta, cheio de leitores e fãs de seu programa na TV, gosta de futebol, de música de qualidade. Mas tá aí nesse time.

Pensando bem, mesmo 2% significam mais de 3 milhões. É um mercado, né? Será que dá pra vender algo para esses borocochôs? Dá pra criar uma revista, digamos, “The Unhappy Link”? Um programa de TV segmentado? Criar um bar com música ao vivo para os amargurados? Promover cruzeiros de navio “só para melancólicos”?...



 Escrito por Vladimir às 07h49
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Canto do Vladimir

Perfil
Nome: Vladimir Batista
Idade: 37
Nasceu: Goiás
Mora: Rio de Janeiro
email: vladimir.batista@gmail.com

Conteúdo
Blog de Vladimir Batista, 37, sobre cinema, curiosidades (etimologia (origem das palavras), dicionário, cultura inútil, rankings (top10, top5,...)), música, TV, literatura, minhas criações (letras, poemas, contos, romances, novelas, roteiros de cinema, argumentos), atualidades, minha vida, etc...


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