Canto do Vladimir


Meus Tops de Filmes 2005

Top10 Cinema 2005
10) Jogos Mortais (o melhor thriller dos últimos anos)
9) Nicotina (comédia de erros e humor negro mexicana em tempo real, muito divertida)
8) 2 Filhos de Francisco (emocionante, bem contado e bem interpretado)
7) Closer – Perto Demais (um ótimo filme sobre relacionamentos e traições)
6) O Clã das Adagas Voadoras (artes marciais de primeira linha com romantismo...)
5) O Lenhador (Kevin Bacon excelente como um pedófilo lutando consigo mesmo)
4) Old Boy (visceral filme coreano de vingança, com um roteiro sensacional)
3) Star Wars - Episódio III – A Vingança dos Sith (o melhor da segunda trilogia, cenas de encher os olhos)
2) Herói (vi há mais de 2 anos, mas só estreou em 2005. Uma obra prima das artes marciais)
1) King Kong (finalmente o prazer de ver cinema de volta. Criativo, romântico, de tirar o fôlego. Já vi duas vezes)

Top5 Cinema Nacional 2005
5) Vinícius (o melhor desse documentário é a obra recitada e cantada do poetinha)
4) Bendito Fruto (divertida comédia de costumes)
3) Cidade Baixa (boa interpretação do trio principal)
2) Cinemas Aspirinas e Urubus (mais um ótimo road-movie nacional)
1) 2 Filhos de Francisco (tomara que seja indicado ao Oscar)

Top5 Festival do Rio 2005
6) Senhor Vingança (uma criativa estréia do diretor de Old Boy)
5) Crash – No Limite (ótimo filme sobre preconceito no mundo atual)
4) Beijos e Tiros (Kiss Kiss Bang Bang) (divertidíssima comédia de erros)
3) Where the truth lies (Thriller à hitchcock, muito bem filmado)
2) 2046 (grande obra de Wong Kar Wai, romântica e com imagens lindas)
1) Encouraçado Potemkin (vi com a Orquestra Sinfônica Brasileira, uma experiência única da minha vida)

Top5 Filmes que vi em DVD ou na TV em 2005
5) Grandes Esperanças
(o sabor de clássico permeia todo o filme)
4) Feitiço de Áquila (como eu ainda não tinha visto esse filme que é tão a minha cara?)
3) Pontes de Madison (emocionante e muito bem interpretado)
2) O Picolino (a dupla Fred Astaire e Ginger Rogers na sua melhor forma)
1) Um corpo que cai (o melhor de Hithcock com suspense e trama psicológica)

Top5 Maiores Decepções no cinema
5) A Fantástica Fábrica de Chocolate (esperava mais; talvez no futuro mereça uma revisitada)
4) Elektra (esperava mais de um filme com a ótima Jennifer Gardner)
3) Espanglês (comédia sem-graça, romance que não engata, tudo de ruim)
2) Amor para Sempre (o título mais enganador dos últimos tempos)
1) Guerra dos Mundos (A primeira metade é excelente, mas a segunda bota tudo a perder)



 Escrito por Vladimir às 07h34
[   ] [ envie esta mensagem ]




O Penedo

Para Clementino aquela situação era um pesadelo: o gelo no estômago, lapsos, espécies de lampejos de perdas de consciência, suores frios e quentes se alternando, gritos esparsos de "agüente firme!" que ouvia, a mão esquerda escorrendo das rochas soltas. A agonia era horrorosa e vinha a seu pensamento a promessa de cinco anos antes, em 1908.

Naquele ano, na comemoração do centenário da Abertura dos Portos, o operário Clementino observava sentado de longe as mais importantes autoridades da República numa estrutura que ele ajudou a montar na Praia Vermelha para a festa. Estava tudo belo e garboso, mas sua mente e suas retinas, na verdade, só davam atenção a sua amada Maria, ali ao seu lado. Pretendia ter uma coversa mais séria com ela naquela tarde, mas não ganhava brios. Escondia uma rosa vermelha, a favorita dos dois, para ofertá-la no momento certo.

- Mas como a festa parece bonita, heim, Clementino...
- Bonita és tu, Maria.
- Hã, seu tolo!... Ei, aquele acolá na festa não é teu chefe, o Doutor Augusto?

Clementino e Maria eram amigos de infância no morro. Já tiveram namoros pudicos, nada além de serenatas que ele dedicara a ela com seu violão. Mulatos, muito alegres e unidos, compartilhavam  sonhos sem limites em comum: voar, subir aos céus, ir para a Lua, para as estrelas. Perderam-se certa vez juntos na Floresta da Tijuca tentando subir o Corcovado. Clementino protegeu sua amiga de todos os perigos e somente um dia depois conseguiram retornar. Essa e outras experiências os tornavam cada vez mais unidos. Ela cresceu formosa, mas ninguém do morro ousava tomá-la da companhia dele; era às vezes conhecida como a "Maria do Clementino".

O problema começou quando jovens da boemia da cidade começaram a subir ao morro para aprender modinhas. Vinham e se encantavam com o samba e, inevitavelmente, com Maria. Cortejavam-na, prometiam vida de princesa e só aí Clementino percebeu melhor seus sentimentos. Percebeu principalmente a urgência de agir, de falar sério com sua amada. E o dia era aquele, sob o belo por-do-sol da Praia Vermelha.

- Maria... Preciso te falar algo sério...
- Pois eu também tenho uma coisa para contar!
- Então... Fale primeiro...
- Sabes aquele moço, o Rubens, filho de diplomata, com quem já entoaste modinhas lá no morro?

Rubens era um dos rapazes da cidade que mais cortejava Maria. Era bonito e educado e a menção do nome dele fez Clementino sentir tonteiras semelhante às que o atingiria pendurado nas pedras cinco anos depois. Mas o choque maior veio logo a seguir:

- Pois vou me casar sim com ele, Clementino, e vou me mudar para Angola. Que bom, não é? Rubens é um bom mancebo, já é doutor e vai me dar um futuro...

O sorriso natural de Clementino murchou imediatamente deixando transparecer toda sua tristeza infinita. A melancolia de quem estava deixando o amor de sua vida escapar de seus dedos como as pedras escorregadias de cinco anos depois. Gaguejou:

- Maria... Tu não podes fazer isso... Eu ia... te pedir em casamento agora... - e mostrou-lhe a rosa que Maria, embaraçada, tomou a si.
- Oh... Não creio no que estás me dizendo, Clementino... Desculpe, mas... isso não é possível!
- Como? Eu sou o teu homem, sempre fui! Comigo tu poderás ter o que quiseres, voar até os céus, poderemos ir aonde tu desejares.
- Esse é teu problema, moço, és sonhador demais. Já reparaste que nenhum de nossos sonhos se tornará realidade um dia? Olha, é melhor não nos falarmos mais, pois não quero te magoar mais...

Maria foi saindo, triste mas determinada. Clementino foi vendo sua amada se afastar como para um abismo. Ele observou os morros atrás dela e correu para reencontrá-la.

- Pois então fique com uma promessa minha, Maria. Podes fazer o que quiser na sua vida. Mas um dia, serei eu quem hei de levar você para cima, para o topo! – começou a girar numa dança desequilibrada - Para o alto daquele morro... - apontou o Morro da Urca. - Não! Para o alto daquela pedra! - indicando o Pão de Açúcar.

Maria olhou com compaixão para o amigo e se foi sob lágrimas. Clementino sentou na relva cheio de uma desilusão amarela esparramada em todo o seu organismo. O choro não vinha, mas a tristeza corroía seu organismo. Foi despertado alguns minutos depois pelo engenheiro Augusto, seu chefe:

- Clementino, estás por aqui? Estou entediado com toda aquela pompa da comemoração, a mim me encantaria mais ouvir tuas modinhas de violão... Diz, por que estás a olhar para os penedos?
- Patrão, seria possível criar um transporte para o cume daquele morro maior ali?

Depois de um momento de hesitação, os olhos de Augusto brilharam. Um enxame de pensamentos de repente borbulharam em sua mente. Ele mediu de cabeça o Morro da Urca e o Pão-de-Açúcar. Lembrou-se de ter lido sobre um bonde suspenso alemão, ou algo assim. Em poucos segundos, um projeto foi se concretizando em sua mente.

- Clementino, tu me deste uma idéia! Vou agora mesmo falar com as autoridades ali! - e saiu entusiasmado...



 Escrito por Vladimir às 08h07
[   ] [ envie esta mensagem ]




...Durante os anos seguintes o Engenheiro Augusto Ferreira Ramos criou a Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, para construir um teleférico para subir até o topo do famoso morro. Clementino também agarrou-se com fervor a esse projeto apoiando seu líder em todos os detalhes.

Já Maria de fato casou-se e viajou para Angola. Clementino usava o trabalho para tentar se esquecer de sua amada. Era uma tarefa difícil, já que o operário estava com a mania de todas as noites sonhar com ele e sua amada juntos. Nesse sonho obsessivamente recorrente, os dois voavam para o Pão-de-Açúcar como se pudessem levitar mesmo. Davam-se os braços e simplesmente pairavam no ar decolando em direção ao morro. Clementino não podia medir a felicidade que sentia durante esses sonhos. Acordava com um espírito lavado e tinha cada vez mais forças para contribuir com o trabalho de seu chefe.

Por isso, apesar de grandes engenheiros do País desacreditarem da possibilidade do projeto, Clementino era, do grupo de trabalho de Augusto, quem dava mais fé a todos, ele sabia que era sim algo viável. Fazia discursos, meio que para si mesmo, da importância de sonhar, de se batalhar para realizar sonhos. Augusto gostava daquela fé contagiante no seu time e de sua parte, com brilhantismo, moveu montanhas para que o projeto crescesse rápido.

Em outubro de 1912, foi inaugurado o trecho até o Morro da Urca. Naquele tempo, Clementino ouviu que sua amada Maria estava no exterior dando a luz ao segundo filho, mas isso não o esmoreceu; continuou seu trabalho firme para ver pronto o trecho para o Pão de Açúcar. Fez questão de liderar os grupos que escalaram as lisas rochas para carregar as gruas, máquinas e cabos até o topo do penedo.

Foi na última escalada em grupo, em dezembro de 1913, algumas semanas antes da inauguração final, que Clementino percebeu a morte por perto. Ele tinha ouvido a notícia que Maria estava no Rio de Janeiro, que queria vê-lo e ficou deveras abalado. Num certo momento da escalada, escorregou das cordas e ficou com a sua vida por um fio. Um embargo terrível o invadiu, que lhe dava força de vida e fraqueza física. Sentiu tremedeiras involuntárias e toda a sua existência estava se apoiando em uma ou duas pequenas rochas nas suas mãos. Seus amigos escalando se aproximavam e gritavam apoiando. Eles podiam salvá-lo? A fraqueza foi vencendo e Clementino sentiu náuseas pesadas. Seu corpo teve aqueles pequeninos ataques de nervos de quem ia morrer. Acima de si o impávido penedo do Pão-de-Açúcar, observava seus espasmos com resignação e abaixo a Baía estava brilhante com o Sol, assim como a cidade e os morros, numa beleza aconchegante, como se fosse um leito de esplendor. O socorro se aproximava rápido mas ele não sentia mais as mãos e os pés e sabia que ia cair. Deu um grito trêmulo e abafado com uma agonia mais triste do mundo. Sua queda à sombra da gigantesca pedra foi algo onírico. Durante seus últimos segundos de queda, Clementino perdeu um pouco dos sentidos e teve seu conhecido sonho recorrente pela última vez. Nesse curto intervalo, delirou que estava voando sobre toda aquela Guanabara ensolarada, pairando como um pássaro ao lado de sua amada Maria.

Algumas semanas depois, em 18 de janeiro de 1913, Maria conseguiu ir à viagem inaugural do bondinho até o Pão de Açúcar. Uns meses antes, seu marido havia lhe abandonado e viajado para a Hong Kong e ela, de volta ao Rio, não teve a chance de consertar seu maior erro, pois não conseguiu se encontrar com Clementino, o único amor verdadeiro de sua vida. Ao se aproximar do topo, Maria pegou a velha rosa vermelha e a despetalou no espaço. Olhou para o céu atrás do penedo e sorriu. Seu amado cumprira a promessa.



 Escrito por Vladimir às 08h06
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]




 
Canto do Vladimir

Perfil
Nome: Vladimir Batista
Idade: 37
Nasceu: Goiás
Mora: Rio de Janeiro
email: vladimir.batista@gmail.com

Conteúdo
Blog de Vladimir Batista, 37, sobre cinema, curiosidades (etimologia (origem das palavras), dicionário, cultura inútil, rankings (top10, top5,...)), música, TV, literatura, minhas criações (letras, poemas, contos, romances, novelas, roteiros de cinema, argumentos), atualidades, minha vida, etc...


Histórico
  01/11/2009 a 30/11/2009
  01/10/2009 a 31/10/2009
  01/09/2009 a 30/09/2009
  01/08/2009 a 31/08/2009
  01/07/2009 a 31/07/2009
  01/06/2009 a 30/06/2009
  01/05/2009 a 31/05/2009
  01/04/2009 a 30/04/2009
  01/03/2009 a 31/03/2009
  01/02/2009 a 28/02/2009
  01/01/2009 a 31/01/2009
  01/12/2008 a 31/12/2008
  01/11/2008 a 30/11/2008
  01/10/2008 a 31/10/2008
  01/09/2008 a 30/09/2008
  01/08/2008 a 31/08/2008
  01/07/2008 a 31/07/2008
  01/06/2008 a 30/06/2008
  01/05/2008 a 31/05/2008
  01/04/2008 a 30/04/2008
  01/03/2008 a 31/03/2008
  01/02/2008 a 29/02/2008
  01/01/2008 a 31/01/2008
  01/12/2007 a 31/12/2007
  01/08/2007 a 31/08/2007
  01/05/2007 a 31/05/2007
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/07/2005 a 31/07/2005
  01/06/2005 a 30/06/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/04/2005 a 30/04/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004
  01/11/2004 a 30/11/2004
  01/10/2004 a 31/10/2004
  01/09/2004 a 30/09/2004
  01/08/2004 a 31/08/2004
  01/07/2004 a 31/07/2004