O Penedo

Para Clementino aquela situação era um pesadelo: o gelo no estômago, lapsos, espécies de lampejos de perdas de consciência, suores frios e quentes se alternando, gritos esparsos de "agüente firme!" que ouvia, a mão esquerda escorrendo das rochas soltas. A agonia era horrorosa e vinha a seu pensamento a promessa de cinco anos antes, em 1908.
Naquele ano, na comemoração do centenário da Abertura dos Portos, o operário Clementino observava sentado de longe as mais importantes autoridades da República numa estrutura que ele ajudou a montar na Praia Vermelha para a festa. Estava tudo belo e garboso, mas sua mente e suas retinas, na verdade, só davam atenção a sua amada Maria, ali ao seu lado. Pretendia ter uma coversa mais séria com ela naquela tarde, mas não ganhava brios. Escondia uma rosa vermelha, a favorita dos dois, para ofertá-la no momento certo.
- Mas como a festa parece bonita, heim, Clementino... - Bonita és tu, Maria. - Hã, seu tolo!... Ei, aquele acolá na festa não é teu chefe, o Doutor Augusto?
Clementino e Maria eram amigos de infância no morro. Já tiveram namoros pudicos, nada além de serenatas que ele dedicara a ela com seu violão. Mulatos, muito alegres e unidos, compartilhavam sonhos sem limites em comum: voar, subir aos céus, ir para a Lua, para as estrelas. Perderam-se certa vez juntos na Floresta da Tijuca tentando subir o Corcovado. Clementino protegeu sua amiga de todos os perigos e somente um dia depois conseguiram retornar. Essa e outras experiências os tornavam cada vez mais unidos. Ela cresceu formosa, mas ninguém do morro ousava tomá-la da companhia dele; era às vezes conhecida como a "Maria do Clementino".
O problema começou quando jovens da boemia da cidade começaram a subir ao morro para aprender modinhas. Vinham e se encantavam com o samba e, inevitavelmente, com Maria. Cortejavam-na, prometiam vida de princesa e só aí Clementino percebeu melhor seus sentimentos. Percebeu principalmente a urgência de agir, de falar sério com sua amada. E o dia era aquele, sob o belo por-do-sol da Praia Vermelha.
- Maria... Preciso te falar algo sério... - Pois eu também tenho uma coisa para contar! - Então... Fale primeiro... - Sabes aquele moço, o Rubens, filho de diplomata, com quem já entoaste modinhas lá no morro?
Rubens era um dos rapazes da cidade que mais cortejava Maria. Era bonito e educado e a menção do nome dele fez Clementino sentir tonteiras semelhante às que o atingiria pendurado nas pedras cinco anos depois. Mas o choque maior veio logo a seguir:
- Pois vou me casar sim com ele, Clementino, e vou me mudar para Angola. Que bom, não é? Rubens é um bom mancebo, já é doutor e vai me dar um futuro...
O sorriso natural de Clementino murchou imediatamente deixando transparecer toda sua tristeza infinita. A melancolia de quem estava deixando o amor de sua vida escapar de seus dedos como as pedras escorregadias de cinco anos depois. Gaguejou:
- Maria... Tu não podes fazer isso... Eu ia... te pedir em casamento agora... - e mostrou-lhe a rosa que Maria, embaraçada, tomou a si. - Oh... Não creio no que estás me dizendo, Clementino... Desculpe, mas... isso não é possível! - Como? Eu sou o teu homem, sempre fui! Comigo tu poderás ter o que quiseres, voar até os céus, poderemos ir aonde tu desejares. - Esse é teu problema, moço, és sonhador demais. Já reparaste que nenhum de nossos sonhos se tornará realidade um dia? Olha, é melhor não nos falarmos mais, pois não quero te magoar mais...
Maria foi saindo, triste mas determinada. Clementino foi vendo sua amada se afastar como para um abismo. Ele observou os morros atrás dela e correu para reencontrá-la.
- Pois então fique com uma promessa minha, Maria. Podes fazer o que quiser na sua vida. Mas um dia, serei eu quem hei de levar você para cima, para o topo! – começou a girar numa dança desequilibrada - Para o alto daquele morro... - apontou o Morro da Urca. - Não! Para o alto daquela pedra! - indicando o Pão de Açúcar.
Maria olhou com compaixão para o amigo e se foi sob lágrimas. Clementino sentou na relva cheio de uma desilusão amarela esparramada em todo o seu organismo. O choro não vinha, mas a tristeza corroía seu organismo. Foi despertado alguns minutos depois pelo engenheiro Augusto, seu chefe:
- Clementino, estás por aqui? Estou entediado com toda aquela pompa da comemoração, a mim me encantaria mais ouvir tuas modinhas de violão... Diz, por que estás a olhar para os penedos? - Patrão, seria possível criar um transporte para o cume daquele morro maior ali?
Depois de um momento de hesitação, os olhos de Augusto brilharam. Um enxame de pensamentos de repente borbulharam em sua mente. Ele mediu de cabeça o Morro da Urca e o Pão-de-Açúcar. Lembrou-se de ter lido sobre um bonde suspenso alemão, ou algo assim. Em poucos segundos, um projeto foi se concretizando em sua mente.
- Clementino, tu me deste uma idéia! Vou agora mesmo falar com as autoridades ali! - e saiu entusiasmado...
Escrito por Vladimir às 08h07
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